Por um momento viajei, vendo por entre as brechas da janela aqueles passarozinhos, que por uma feliz coincidência cantavam sob um céu cinzento, que também servia de fundo para aquela cantoria, e de fora vinha aquele vento de chuva, aquele mesmo por que tanto já viajara viagem anual pra minha infância, da qual sempre voltava com um suspiro profundo e os olhos marejados. A árvore atrás, árvore urbana dessas da qual nunca se sabe o nome, com seus galhos dançando, logo insinuaram uma cajueiro, e para completar a viagem faltou apenas uma janelinha branca, velhinha cheia de buracos, nela e na tinta, com uma trave na diagonal, só esperando o fim do dia para cumprir seu papel de guarda.
Voltei então à realidade, como sempre da mesma forma. Os pássaros não estavam mais lá, de canto somente The Strokes, o cajueiro havia sumido, porém o céu cinzento ainda estava lá, afinal já estamos em novembro, já é um pequeno e bem simples anúncio do inverno. Pensei então: ora, o céu ainda está aí, e os pássaros realmente estavam. Não pode-se diminuir a importância que infância tem para nós, tampouco sua beleza [quando se tem infância]. Mas os pássaros, o céu, ainda são os mesmos, ainda são belos, apesar de não haver mais cajueiros. O presente pode ser bonito também, pode dar as mesmas lembranças bonitas no futuro, então vou vivê-lo um pouco, vou curtir o céu, ele está lindo!
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